Houve um tempo em que o tempo não passou. Não havia nada dentro daqueles minutos que corriam.
Olhou pra cima. Pro teto. Ficou triste pelo falo de ser um teto e não um lindo céu estrelado. Percebeu que quase sempre é um teto. Ficou algum tempo pensando sobre pensar e então percebeu como era estranho pensar sobre pensar e pensou sobre o pensar do seu pensar e só parou quando apertou olhos com as pontas dos dedos e aí não pensou em nada. Pensou sobre não pensar em nada.
Lançou um olhar de preguiça e desespero para o resto do quarto e lembrou do que tinha que fazer quando o tempo parasse de parar. Examinou as unhas ruídas. Fechou os olhos. Algumas imagens dançaram pela escuridão do seu interior, fizeram piada, bateram palmas, sorriram e foram embora. Começou a imaginar-se daqui a alguns anos. Não conseguiu decidir se queria ter cabelo curto ou comprido e então parou de imaginar.
Abriu os olhos. A claridade a incomodou. Fechou os olhos. Percebeu um vazio interno. Não se impressionou, este ela conhecia há tempos, mais ou menos o mesmo tempo que conhecia a si mesma. Ele tinha dois melhores amigos: o Frio na Barriga e a Palpitação. Andavam sempre juntos e, na verdade, não eram muito legais não.
Respirou fundo. Sentiu-se completamente envolta pelo nada. Abraçou essa incerteza e, por alguns instantes, se sentiu lisonjeada por aquela sensação. Naquele momento, ela sentia o mundo.
Abriu os olhos. Sorriu. Deu corda no tempo e ele voltou a funcionar.