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Depois desse dia muita coisa ficou igual. Eu continuei sorrindo pro espelho, ele continuou achando graça em espirros, eu continuei ouvindo Belchior escondida, ele continuou não gostando de abacaxi, nós continuamos os dois amando portas azuis e tangerina. Mas é que agora havia um silêncio indizível entre a gente. Algo entre a cumplicidade e o remorso, entre o não-dito e o mal-dito. Mas era nesse silêncio onde residiam as memórias, os planos falidos, as declarações interrompidas. Era esse silêncio que nos fazia ser gentis e cordiais, que nos faziam perguntar como vão as coisas, e a família? a faculdade? e o fulano, como ta? e outras perguntas que não nos interessavam as respostas. Era o silêncio que nos fazia desviar o olhar quando os nossos se cruzavam, que nos esfriava as entranhas quando nos víamos de repente. Era o terrível silêncio dos desconhecidos íntimos.
Era o silêncio do vazio.