Outro dia eu tava lendo Bandeira nas barcas e aí de repente assim, do nada, me deu uma coisa, uma coisa estranha, que eu achei que eu fosse morrer. Pensei: “É isso: vou morrer. É um presságio.”
E aí passei o resto do meu dia me despedindo mentalmente das coisas. Dizia, aqui dentro: “Adeus Rio, adeus engarrafamento, adeus mar, adeus céu cinza, adeus ônibus lotado, adeus cheiro de chuva, adeus pé feio”. Fiquei pensando que morrer até certo ponto era legal, algo que eu nunca passei, uma novidade. Fiz planos pro meu enterro, pensei em escrever uma carta pra me gabar do meu poder de prever o futuro. Até cheguei a ficar com um ciuminho das minhas coisas que eu ia deixar. Mas tudo bem, “para morrer há que se desprender das coisas”, pensei.
Pois o meu dia foi seguindo e eu sorrindo para todos com o olhar sereno de quem está prestes a encontrar a eternidade. “Ah, pobres coitados, não dão o real valor à vida, que tolos!”. Comecei a me afastar gradualmente do mundo, achando que já já eu ia embora desse monte de lixo humano. E, quando eu vi, eu não só não estava mais com saudade, como já comecei a me sentir evoluída demais pra permanecer viva. “Cadê essa morte que não chega? Tenho pressa!”
Mas aí o dia foi passando, passando, passando... A noite chegou e depois, a madrugada, e nada da Dona Morte vir me pegar. É, é triste: me gabei tanto da minha situação de futura defunta que acabei não morrendo. Que coisa! Acho que o destino tem uma personalidade meio felina.
