27 de set. de 2010

Ai, morri!

     Outro dia eu tava lendo Bandeira nas barcas e aí de repente assim, do nada, me deu uma coisa, uma coisa estranha, que eu achei que eu fosse morrer. Pensei: “É isso: vou morrer. É um presságio.”
     E aí passei o resto do meu dia me despedindo mentalmente das coisas. Dizia, aqui dentro: “Adeus Rio, adeus engarrafamento, adeus mar, adeus céu cinza, adeus ônibus lotado, adeus cheiro de chuva, adeus pé feio”. Fiquei pensando que morrer até certo ponto era legal, algo que eu nunca passei, uma novidade. Fiz planos pro meu enterro, pensei em escrever uma carta pra me gabar do meu poder de prever o futuro. Até cheguei a ficar com um ciuminho das minhas coisas que eu ia deixar. Mas tudo bem, “para morrer há que se desprender das coisas”, pensei.
     Pois o meu dia foi seguindo e eu sorrindo para todos com o olhar sereno de quem está prestes a encontrar a eternidade. “Ah, pobres coitados, não dão o real valor à vida, que tolos!”. Comecei a me afastar gradualmente do mundo, achando que já já eu ia embora desse monte de lixo humano. E, quando eu vi, eu não só não estava mais com saudade, como já comecei a me sentir evoluída demais pra permanecer viva. “Cadê essa morte que não chega? Tenho pressa!”
     Mas aí o dia foi passando, passando, passando... A noite chegou e depois, a madrugada, e nada da Dona Morte vir me pegar. É, é triste: me gabei tanto da minha situação de futura defunta que acabei não morrendo. Que coisa! Acho que o destino tem uma personalidade meio felina.

24 de set. de 2010

22 de set. de 2010

no caminho...

"-psiu!"

...e mudou o dia.

19 de set. de 2010

apolo e dionísio

Primeiro, ouve-se um barulho. São passos. Parece alguém andando aflito por um piso oco. De repente, toca a campinha. Barulho de porta abrindo. Corta.
Aí sim: aparece a imagem.
É um lugar claro, amplo. Tem algumas janelas abertas e por ela dá pra ver que está anoitecendo e prestes a chover. Por isso, ventam as cortinas e outros objetos pela sala. Papéis. Também ventam alguns papéis. A pessoa da porta entra e vai logo em direção á janela que está à esquerda. É uma mulher. Parece aflita, angustiada. O homem que atendeu a porta agora se direciona para o centro da sala, onde tem um sofá. Ele senta. Pode-se ver que os dois estão agitados e angustiados, como pessoas que estão prestes a mudar suas vidas. A mulher enxuga algumas lágrimas, o rapaz fecha os olhos. Barulho de trovões, mais objetos voando. Parece que a sala está tão inquieta quanto eles.

-Os anos passam e a gente só se dá conta quando eles param de passar. Você sempre me achou maluca, diz que o que eu falo tem muita poesia e pouco sentido. Pois eu te digo, meu caro, prefiro minha poesia ao seu nexo. Pelo menos assim eu sei que vou estar sempre sendo honesta, mesmo que não seja coerente. Eu vim de muito longe pra te mandar tomar no cu, te fazer engolir de volta todas as palavras escrotas e esse seu ar de quem tem muita inteligência emocional. Pra porra com a sua cara de nada! O que você não sabe, o que você nunca vai saber, é como é dizer pro mundo sempre o que se tem vontade, sem se preocupar se é coerente, se é correto, se vai ser bem entendido por todos. Mas tem que ser espontâneo, porra! Nesse tempo todo eu nunca te vi ser verdadeiramente você. Cadê você? Do que você se esconde? Eu to indo, to dizendo pra você que assim que eu sair por aquela porta você nunca mais vai precisar se preocupar comigo, se eu to bem, se tu to bêbada de mais, se eu fumei de mais, se eu to chapada de mais pra encontrar seus pais. Mas você, você vai ficar ai, nesse mar de coisas falsas que você criou. Vai continuar sereno, vai continuar fazendo coisas corretíssimas, agradecendo a Deus por a sua vida morna, sua carreira e sua cara de babaca. E eu vou sair pro mundo, continuar errando, continuar vendo poesia na derrota, vou continuar chorando por você, seu merda. Tomara que você se foda!

Ela sai. Bate a porta. Agora já está bem escuro e só se vê a sombra dele sentado no sofá branco ao centro. É nesse momento que a câmera se aproxima em direção ao seu rosto e aí dá pra ver, claramente: ele de fato tinha cara de babaca. Corta.

11 de set. de 2010

votos de submissão

"Caso você queira posso passar seu terno,
aquele que você não usa por estar amarrotado.
Costuro as suas meias para o longo inverno...
Use capa de chuva, não quero ter você molhado.
Se de noite fizer aquele tão esperado frio
poderei cobrir-lhe com o meu corpo inteiro.
E verás como a minha pele de algodão macio,
agora quente, será fresca quando for janeiro.

Nos meses de outono eu varro sua varanda,
para deitarmos debaixo de todos os planetas.
O meu cheiro te acolherá com toques de lavanda
- Em mim há outras mulheres e algumas ninfetas-
Depois plantarei para ti margaridas da primavera
e aí no meu corpo somente você e leves vestidos,
para serem tirados pelo seu total desejo de quimera.
- Os meus desejos, irei ver nos seus olhos refletidos.

Mas quando for a hora de me calar e ir embora
sei que, sofrendo, deixarei você longe de mim.
Não me envergonharia de pedir ao seu amor esmola,
mas não quero que o meu verão resseque o seu jardim.

(Nem vou deixar – mesmo querendo – nenhuma fotografia.
Só o frio, os planetas, as ninfetas e toda minha poesia.)"

f.y.