4 de out. de 2010

fala tu, caio:

‘Ah, no fim destes dias crispados de início de primavera, entre os engarrafamentos de trânsito, as pessoa enlouquecidas e a paranóia à solta pela cidade, no fim desses dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa, e passa a mão na minha cara marcada, no que resta de cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro.
(...)
Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse meu jeito de ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse jeito se despedaça. Torre fulminada, o inabalável vacila quando começa a brotar de mim isso que não está completo sem o outro. Você assopra na minha testa. Sou só poeira, me espalho em grãs invisíveis pelos quatro cantos do quarto.
A cidade está louca, você sabe. A cidade está doente, você sabe. A cidade está podre, você sabe. Como gostar limpo de você no meio desse doente podre louco? Urbanóides cortam sempre meu caminho à procura de cigarros, fósforos, sexo, dinheiro, palavras e necessidades obscuras, que não chego a decifrar em seus olhos semafóricos.
(...)
Apenas me deixo embalar pelo ritmo de sua voz, dentro dessa melodia monótona angustiada perplexa repetitiva. Quase três da manhã. Não temos onde ir, nunca tivemos aonde ir. Um nojo, vez em quando me dá asco - nojo é culpa, nojo é moral - você se sente sórdido, baby? - eu tenho medo, eu não quero correr risco - não é mais possível - vamos parar por aqui - quero acordar cedo, fazer cooper no parque, parar de beber, parar de fumar, parar de sentir - estou muito cansado - não faz assim, não diz assim - é muito pouco - não vai dar certo - anormal, eu tenho medo - medo é culpa, medo é moral - não vê que é isso que eles querem que você sinta? Medo, culpa, vergonha - eu aceito, eu me contento com pouco - eu não aceito nada nem me contento com pouco - eu quero muito, eu quero mais, eu quero tudo!’

caio f.

27 de set. de 2010

Ai, morri!

     Outro dia eu tava lendo Bandeira nas barcas e aí de repente assim, do nada, me deu uma coisa, uma coisa estranha, que eu achei que eu fosse morrer. Pensei: “É isso: vou morrer. É um presságio.”
     E aí passei o resto do meu dia me despedindo mentalmente das coisas. Dizia, aqui dentro: “Adeus Rio, adeus engarrafamento, adeus mar, adeus céu cinza, adeus ônibus lotado, adeus cheiro de chuva, adeus pé feio”. Fiquei pensando que morrer até certo ponto era legal, algo que eu nunca passei, uma novidade. Fiz planos pro meu enterro, pensei em escrever uma carta pra me gabar do meu poder de prever o futuro. Até cheguei a ficar com um ciuminho das minhas coisas que eu ia deixar. Mas tudo bem, “para morrer há que se desprender das coisas”, pensei.
     Pois o meu dia foi seguindo e eu sorrindo para todos com o olhar sereno de quem está prestes a encontrar a eternidade. “Ah, pobres coitados, não dão o real valor à vida, que tolos!”. Comecei a me afastar gradualmente do mundo, achando que já já eu ia embora desse monte de lixo humano. E, quando eu vi, eu não só não estava mais com saudade, como já comecei a me sentir evoluída demais pra permanecer viva. “Cadê essa morte que não chega? Tenho pressa!”
     Mas aí o dia foi passando, passando, passando... A noite chegou e depois, a madrugada, e nada da Dona Morte vir me pegar. É, é triste: me gabei tanto da minha situação de futura defunta que acabei não morrendo. Que coisa! Acho que o destino tem uma personalidade meio felina.

24 de set. de 2010