19 de set. de 2010

apolo e dionísio

Primeiro, ouve-se um barulho. São passos. Parece alguém andando aflito por um piso oco. De repente, toca a campinha. Barulho de porta abrindo. Corta.
Aí sim: aparece a imagem.
É um lugar claro, amplo. Tem algumas janelas abertas e por ela dá pra ver que está anoitecendo e prestes a chover. Por isso, ventam as cortinas e outros objetos pela sala. Papéis. Também ventam alguns papéis. A pessoa da porta entra e vai logo em direção á janela que está à esquerda. É uma mulher. Parece aflita, angustiada. O homem que atendeu a porta agora se direciona para o centro da sala, onde tem um sofá. Ele senta. Pode-se ver que os dois estão agitados e angustiados, como pessoas que estão prestes a mudar suas vidas. A mulher enxuga algumas lágrimas, o rapaz fecha os olhos. Barulho de trovões, mais objetos voando. Parece que a sala está tão inquieta quanto eles.

-Os anos passam e a gente só se dá conta quando eles param de passar. Você sempre me achou maluca, diz que o que eu falo tem muita poesia e pouco sentido. Pois eu te digo, meu caro, prefiro minha poesia ao seu nexo. Pelo menos assim eu sei que vou estar sempre sendo honesta, mesmo que não seja coerente. Eu vim de muito longe pra te mandar tomar no cu, te fazer engolir de volta todas as palavras escrotas e esse seu ar de quem tem muita inteligência emocional. Pra porra com a sua cara de nada! O que você não sabe, o que você nunca vai saber, é como é dizer pro mundo sempre o que se tem vontade, sem se preocupar se é coerente, se é correto, se vai ser bem entendido por todos. Mas tem que ser espontâneo, porra! Nesse tempo todo eu nunca te vi ser verdadeiramente você. Cadê você? Do que você se esconde? Eu to indo, to dizendo pra você que assim que eu sair por aquela porta você nunca mais vai precisar se preocupar comigo, se eu to bem, se tu to bêbada de mais, se eu fumei de mais, se eu to chapada de mais pra encontrar seus pais. Mas você, você vai ficar ai, nesse mar de coisas falsas que você criou. Vai continuar sereno, vai continuar fazendo coisas corretíssimas, agradecendo a Deus por a sua vida morna, sua carreira e sua cara de babaca. E eu vou sair pro mundo, continuar errando, continuar vendo poesia na derrota, vou continuar chorando por você, seu merda. Tomara que você se foda!

Ela sai. Bate a porta. Agora já está bem escuro e só se vê a sombra dele sentado no sofá branco ao centro. É nesse momento que a câmera se aproxima em direção ao seu rosto e aí dá pra ver, claramente: ele de fato tinha cara de babaca. Corta.

5 comentários:

Anônimo disse...

Visitar seus textos é me encontrar em mim...

Unknown disse...

AMEI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
VAMOS GRAVAR!

clara sym disse...

ameeeeeeeeeeeeeeeei isso!!!!!!!!!

Anônimo disse...

Angelito's way of life.

Sayd Mansur disse...

hAHauauahHAhaah!!!!!!