minhas unhas estão com um resto de esmalte velho e mini-partículas da sua pele. estão feias. acendi um cigarro enquanto olhava as falhas naquela madeira velha e escura, naquele lugar tão velho e escuro quanto à madeira. costumávamos ir ali antes de tudo isso, lembra? a estátua continua no mesmo lugar de antes, a diferença é que agora o bar fica na esquerda. fumei o cigarro inteiro esperando você chegar, mesmo sabendo que não tínhamos marcado nada, achei que você podia simplesmente sentir que eu tava ali pensando em você e aí chegar lá também. se eu tivesse grana, te pagava um vinho. se eu tivesse grana, eu pagava um analista. ia dizer pra ele como que tudo ficou assim, ia falar os detalhes sórdidos daqueles tempos que eu te odiava e te amava ao mesmo tempo.
to cansada. to pensando em deixar o cabelo crescer. acho engraçada essa prática de ir anotando enquanto se está pensando. queria sua companhia agora mais do que eu queria o vinho e o analista. olhei de novo pra unha, pra me concentrar em não deixar nenhuma lágrima escorrer sem a minha permissão. aquela moça do bar fica me olhando como soubesse que eu to sentindo tua falta. vaca. pra falar a verdade, quase todas as pessoas tão me olhando como se faltasse algo. até eu mesma enxergo tua ausência nos mais tristes detalhes.do nada procuro no meu pulso aquela pulseira que tu usava, olho no espelho e me espanto que o reflexo não tenha os olhos iguais ao teus, a textura do rosto como é a sua, a tua boca. não sei quando exatamente eu comecei a pensar que nós éramos uma só, mas isso até hoje me perturba. te vejo em mim, me vejo em ti, quase sempre: menos quando você me sorri daquele jeito falso que tu sorri pra qualquer um. odeio o você que os outros tem, prefiro o teu eu comigo.
pausa (me ocupo de resgatar o bichinho que caiu na coca cola)
lembra quando íamos a praia juntas, numa tarde cinza pra beber vinho e fumar um? no início era sempre ótimo mas no final já estávamos brigando. você dizia pra mim que meu ciúme era besta, besta é você que nunca percebeu como as pessoas te olhavam. pra falar a verdade, você percebeu muito pouca coisa. eu me afoguei na sua coca cola e você me bebeu sem perceber. agora eu to aí morando em alguma parte do seu organismo podre, esperando você me digerir inteira. e..
ah..esquece.
meio maço do meu cigarro já se foi e você ainda nem se deu o trabalho de chegar. agora a moça do bar me olha com uma certa pena, parece que ela sabe que você de fato está faltando e, o pior: não vai chegar. olho pra estátua, ela me parece a única sensata nesse lugar. sua pele de baixo da minha unha começa a me incomodar e eu já não tenho pena de mim mesma. lembro mais uma vez de você me olhando hoje mais cedo com seu sorriso de todos os outros, lembro da raiva que eu senti por você não ser mais só minha e simplesmente me refaço do meu transe. limpo a unha e me sinto estranhamente bem.
na real, foda-se: quem engoliu o bicho foi você.
4 comentários:
"odeio o você que os outros tem, prefiro o teu eu comigo."
incrível essa frase.
acho que consegui sentir a ausência enquanto lia.
gostei mt!
daqueles textos que se precisa ler várias vezes pra conseguir sentir tudo e se deliciar de maneiras diferentes.
ai, nana
que lindo..
gostei marinana! tu tem alguma coisa..
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