"Caso você queira posso passar seu terno,
aquele que você não usa por estar amarrotado.
Costuro as suas meias para o longo inverno...
Use capa de chuva, não quero ter você molhado.
Se de noite fizer aquele tão esperado frio
poderei cobrir-lhe com o meu corpo inteiro.
E verás como a minha pele de algodão macio,
agora quente, será fresca quando for janeiro.
Nos meses de outono eu varro sua varanda,
para deitarmos debaixo de todos os planetas.
O meu cheiro te acolherá com toques de lavanda
- Em mim há outras mulheres e algumas ninfetas-
Depois plantarei para ti margaridas da primavera
e aí no meu corpo somente você e leves vestidos,
para serem tirados pelo seu total desejo de quimera.
- Os meus desejos, irei ver nos seus olhos refletidos.
Mas quando for a hora de me calar e ir embora
sei que, sofrendo, deixarei você longe de mim.
Não me envergonharia de pedir ao seu amor esmola,
mas não quero que o meu verão resseque o seu jardim.
(Nem vou deixar – mesmo querendo – nenhuma fotografia.
Só o frio, os planetas, as ninfetas e toda minha poesia.)"
f.y.
11 de set. de 2010
19 de ago. de 2010
apenas é
"Os sentimentos vastos não têm nome. Perdas, deslumbramentos, catástrofes do espírito, pesadelos da carne. Os sentimentos vastos não têm boca, fundo de sortunez, mudo desvario, escuros enigmas habitados de vida mas sem sons (...)"
Hilda Hilst
É claro, é leve, é limpo. Posso senti-lo por pouco tempo antes de perdê-lo no vazio. Não o descrevo por vontade, mas sim por necessidade. Não há substantivos possíveis. É como um objeto feito só pela união de adjetivos. Não me lembro a primeira vez que o vi, mas sinto que a cada dia o conheço um pouco mais. Às vezes aparece de súbito, outras vem sutil como o cheiro do alecrim que pousa na panela. Apesar de não ter cheiro, nem cor, nem forma, nem nada. Apenas é. E é inteiro, como algo que de tão óbvio não se pode entender. Pode aparecer em páginas amareladas de um velho livro, ou nos melhores planos dos melhores filmes, mas, geralmente, é do nada que prefere surgir.
Mas é na ausência que mais posso ver sua presença. Fico atormentada por não conseguir perceber sua cor invisível, sentir seu cheiro de gelo, ouvir o barulho do seu silêncio. É como sentir a angústia dos apaixonados mesmo sem arder de paixão por ninguém.
E calada eu espero. Ocupo-me de banalidades, troco palavras amenas com pessoas que nunca o viram, jamais o verão ou saberão da sua existência. E então, em algum momento sem importância dos meus dias vazios, o sinto novamente. O sinto e o percebo como uma brisa fria numa manhã quente, como um abraço forte de alguém que não se pode ver. Nesse momento, acho que posso vê-lo, apesar dos olhos fechados. E no momento ido da sua chegada, já posso reconhecer sua partida...
E lá se foi de volta pro reino das coisas indizíveis.
14 de ago. de 2010
das palavras que estão dentro de um olhar
um verso curto
prum longo caminho
eu quero ser o seu mundo
quando estiver sozinho
prum longo caminho
eu quero ser o seu mundo
quando estiver sozinho
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