4 de mai. de 2016

(entre)

sobre o que eu falaria se não tivesse nada pra falar agora

bom, começaria por essa semana confusa, esse ano de marte tá me deixando vermelha demais. falaria sobre mais uma vez essa dor conhecida, esse nó no peito, essa mania de se jogar de precipício em precipício, mesmo que isso não se refira e nenhum ofício, porque oficialmente eu não tenho ofício. falaria sobre todas as angustias que me rodeiam sendo mulher, jovem, brasileira e estando sozinha no mundo, como todas as mulheres, jovens e brasileiras estão.

poderia também falar sobre o amor. essa coisa linda maravilhosa que só tem seus efeitos verdadeiramente experenciados quando estamos de peito aberto, mente sã, porque o amor na confusão só se torna mais parte dela. e é isso que eu vejo a maioria das pessoas fazendo com o amor: jogando ele na sua própria confusão e o misturando com um bocado de coisas não tão lindas e eles acabam procriando (sabemos que tudo que fica junto muito tempo procria) e os filhos do amor do amor com a a confusão podem ser a própria arte, mas podem também ser pequenos monstrinhos com bocas que comem o eu.

poderia falar sobre o sol lindo que eu vi hoje a tarde e como é bom estar longe de casa para poder pensar. ou sobre a saudade que pesa enquanto afunda, dói no peito uma dor constante de distancia. e é claro, eu poderia falar sobre mim, assim como todas as coisas que eu falo, pois elas não são outra coisa que não eu

mas não. há que se dizer mais


11 de jan. de 2011

eis o meu silêncio mais barulhento

Queria falar do rio que passa límpido pelo mato. Queria falar do cheiro de tempero que invade a casa. Queria falar da flor que nasceu do chão dessa rua só de asfalto. Queria falar das árvores que ainda dançam lindamente a música que o vendo faz. Queria falar do dia tão bonito que ta fazendo lá fora e do sol que abraça a todos com um calor tão sincero. Queria falar da beleza do mundo e dos sorrisos das pessoas que realmente sorriem. Queria falar do Amor.
Mas eu não vou.

6 de nov. de 2010

Era um belo dia pra ser o que sempre se quer ser. Mas existem pessoas que sempre vão pelo caminho mais longo e, naquele dia, ela decidiu simplesmente não ser. No curto e longo caminho até o mar pensou coisas que não ousava pensar há tempos:




Vai sempre existir um lugar livre de qualquer ausência.

1 de nov. de 2010

pele

minhas unhas estão com um resto de esmalte velho e mini-partículas da sua pele. estão feias. acendi um cigarro enquanto olhava as falhas naquela madeira velha e escura, naquele lugar tão velho e escuro quanto à madeira. costumávamos ir ali antes de tudo isso, lembra? a estátua continua no mesmo lugar de antes, a diferença é que agora o bar fica na esquerda. fumei o cigarro inteiro esperando você chegar, mesmo sabendo que não tínhamos marcado nada, achei que você podia simplesmente sentir que eu tava ali pensando em você e aí chegar lá também. se eu tivesse grana, te pagava um vinho. se eu tivesse grana, eu pagava um analista. ia dizer pra ele como que tudo ficou assim, ia falar os detalhes sórdidos daqueles tempos que eu te odiava e te amava ao mesmo tempo.
to cansada. to pensando em deixar o cabelo crescer. acho engraçada essa prática de ir anotando enquanto se está pensando. queria sua companhia agora mais do que eu queria o vinho e o analista. olhei de novo pra unha, pra me concentrar em não deixar nenhuma lágrima escorrer sem a minha permissão. aquela moça do bar fica me olhando como soubesse que eu to sentindo tua falta. vaca. pra falar a verdade, quase todas as pessoas tão me olhando como se faltasse algo. até eu mesma enxergo tua ausência nos mais tristes detalhes.do nada procuro no meu pulso aquela pulseira que tu usava, olho no espelho e me espanto que o reflexo não tenha os olhos iguais ao teus, a textura do rosto como é a sua, a tua boca. não sei quando exatamente eu comecei a pensar que nós éramos uma só, mas isso até hoje me perturba. te vejo em mim, me vejo em ti, quase sempre: menos quando você me sorri daquele jeito falso que tu sorri pra qualquer um. odeio o você que os outros tem, prefiro o teu eu comigo.





pausa (me ocupo de resgatar o bichinho que caiu na coca cola)

lembra quando íamos a praia juntas, numa tarde cinza pra beber vinho e fumar um? no início era sempre ótimo mas no final já estávamos brigando. você dizia pra mim que meu ciúme era besta, besta é você que nunca percebeu como as pessoas te olhavam. pra falar a verdade, você percebeu muito pouca coisa. eu me afoguei na sua coca cola e você me bebeu sem perceber. agora eu to aí morando em alguma parte do seu organismo podre, esperando você me digerir inteira. e..


ah..esquece.

meio maço do meu cigarro já se foi e você ainda nem se deu o trabalho de chegar. agora a moça do bar me olha com uma certa pena, parece que ela sabe que você de fato está faltando e, o pior: não vai chegar. olho pra estátua, ela me parece a única sensata nesse lugar. sua pele de baixo da minha unha começa a me incomodar e eu já não tenho pena de mim mesma. lembro mais uma vez de você me olhando hoje mais cedo com seu sorriso de todos os outros, lembro da raiva que eu senti por você não ser mais só minha e simplesmente me refaço do meu transe. limpo a unha e me sinto estranhamente bem.
na real, foda-se: quem engoliu o bicho foi você.

4 de out. de 2010

fala tu, caio:

‘Ah, no fim destes dias crispados de início de primavera, entre os engarrafamentos de trânsito, as pessoa enlouquecidas e a paranóia à solta pela cidade, no fim desses dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa, e passa a mão na minha cara marcada, no que resta de cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro.
(...)
Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse meu jeito de ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse jeito se despedaça. Torre fulminada, o inabalável vacila quando começa a brotar de mim isso que não está completo sem o outro. Você assopra na minha testa. Sou só poeira, me espalho em grãs invisíveis pelos quatro cantos do quarto.
A cidade está louca, você sabe. A cidade está doente, você sabe. A cidade está podre, você sabe. Como gostar limpo de você no meio desse doente podre louco? Urbanóides cortam sempre meu caminho à procura de cigarros, fósforos, sexo, dinheiro, palavras e necessidades obscuras, que não chego a decifrar em seus olhos semafóricos.
(...)
Apenas me deixo embalar pelo ritmo de sua voz, dentro dessa melodia monótona angustiada perplexa repetitiva. Quase três da manhã. Não temos onde ir, nunca tivemos aonde ir. Um nojo, vez em quando me dá asco - nojo é culpa, nojo é moral - você se sente sórdido, baby? - eu tenho medo, eu não quero correr risco - não é mais possível - vamos parar por aqui - quero acordar cedo, fazer cooper no parque, parar de beber, parar de fumar, parar de sentir - estou muito cansado - não faz assim, não diz assim - é muito pouco - não vai dar certo - anormal, eu tenho medo - medo é culpa, medo é moral - não vê que é isso que eles querem que você sinta? Medo, culpa, vergonha - eu aceito, eu me contento com pouco - eu não aceito nada nem me contento com pouco - eu quero muito, eu quero mais, eu quero tudo!’

caio f.

27 de set. de 2010

Ai, morri!

     Outro dia eu tava lendo Bandeira nas barcas e aí de repente assim, do nada, me deu uma coisa, uma coisa estranha, que eu achei que eu fosse morrer. Pensei: “É isso: vou morrer. É um presságio.”
     E aí passei o resto do meu dia me despedindo mentalmente das coisas. Dizia, aqui dentro: “Adeus Rio, adeus engarrafamento, adeus mar, adeus céu cinza, adeus ônibus lotado, adeus cheiro de chuva, adeus pé feio”. Fiquei pensando que morrer até certo ponto era legal, algo que eu nunca passei, uma novidade. Fiz planos pro meu enterro, pensei em escrever uma carta pra me gabar do meu poder de prever o futuro. Até cheguei a ficar com um ciuminho das minhas coisas que eu ia deixar. Mas tudo bem, “para morrer há que se desprender das coisas”, pensei.
     Pois o meu dia foi seguindo e eu sorrindo para todos com o olhar sereno de quem está prestes a encontrar a eternidade. “Ah, pobres coitados, não dão o real valor à vida, que tolos!”. Comecei a me afastar gradualmente do mundo, achando que já já eu ia embora desse monte de lixo humano. E, quando eu vi, eu não só não estava mais com saudade, como já comecei a me sentir evoluída demais pra permanecer viva. “Cadê essa morte que não chega? Tenho pressa!”
     Mas aí o dia foi passando, passando, passando... A noite chegou e depois, a madrugada, e nada da Dona Morte vir me pegar. É, é triste: me gabei tanto da minha situação de futura defunta que acabei não morrendo. Que coisa! Acho que o destino tem uma personalidade meio felina.

24 de set. de 2010

22 de set. de 2010

no caminho...

"-psiu!"

...e mudou o dia.

19 de set. de 2010

apolo e dionísio

Primeiro, ouve-se um barulho. São passos. Parece alguém andando aflito por um piso oco. De repente, toca a campinha. Barulho de porta abrindo. Corta.
Aí sim: aparece a imagem.
É um lugar claro, amplo. Tem algumas janelas abertas e por ela dá pra ver que está anoitecendo e prestes a chover. Por isso, ventam as cortinas e outros objetos pela sala. Papéis. Também ventam alguns papéis. A pessoa da porta entra e vai logo em direção á janela que está à esquerda. É uma mulher. Parece aflita, angustiada. O homem que atendeu a porta agora se direciona para o centro da sala, onde tem um sofá. Ele senta. Pode-se ver que os dois estão agitados e angustiados, como pessoas que estão prestes a mudar suas vidas. A mulher enxuga algumas lágrimas, o rapaz fecha os olhos. Barulho de trovões, mais objetos voando. Parece que a sala está tão inquieta quanto eles.

-Os anos passam e a gente só se dá conta quando eles param de passar. Você sempre me achou maluca, diz que o que eu falo tem muita poesia e pouco sentido. Pois eu te digo, meu caro, prefiro minha poesia ao seu nexo. Pelo menos assim eu sei que vou estar sempre sendo honesta, mesmo que não seja coerente. Eu vim de muito longe pra te mandar tomar no cu, te fazer engolir de volta todas as palavras escrotas e esse seu ar de quem tem muita inteligência emocional. Pra porra com a sua cara de nada! O que você não sabe, o que você nunca vai saber, é como é dizer pro mundo sempre o que se tem vontade, sem se preocupar se é coerente, se é correto, se vai ser bem entendido por todos. Mas tem que ser espontâneo, porra! Nesse tempo todo eu nunca te vi ser verdadeiramente você. Cadê você? Do que você se esconde? Eu to indo, to dizendo pra você que assim que eu sair por aquela porta você nunca mais vai precisar se preocupar comigo, se eu to bem, se tu to bêbada de mais, se eu fumei de mais, se eu to chapada de mais pra encontrar seus pais. Mas você, você vai ficar ai, nesse mar de coisas falsas que você criou. Vai continuar sereno, vai continuar fazendo coisas corretíssimas, agradecendo a Deus por a sua vida morna, sua carreira e sua cara de babaca. E eu vou sair pro mundo, continuar errando, continuar vendo poesia na derrota, vou continuar chorando por você, seu merda. Tomara que você se foda!

Ela sai. Bate a porta. Agora já está bem escuro e só se vê a sombra dele sentado no sofá branco ao centro. É nesse momento que a câmera se aproxima em direção ao seu rosto e aí dá pra ver, claramente: ele de fato tinha cara de babaca. Corta.

11 de set. de 2010

votos de submissão

"Caso você queira posso passar seu terno,
aquele que você não usa por estar amarrotado.
Costuro as suas meias para o longo inverno...
Use capa de chuva, não quero ter você molhado.
Se de noite fizer aquele tão esperado frio
poderei cobrir-lhe com o meu corpo inteiro.
E verás como a minha pele de algodão macio,
agora quente, será fresca quando for janeiro.

Nos meses de outono eu varro sua varanda,
para deitarmos debaixo de todos os planetas.
O meu cheiro te acolherá com toques de lavanda
- Em mim há outras mulheres e algumas ninfetas-
Depois plantarei para ti margaridas da primavera
e aí no meu corpo somente você e leves vestidos,
para serem tirados pelo seu total desejo de quimera.
- Os meus desejos, irei ver nos seus olhos refletidos.

Mas quando for a hora de me calar e ir embora
sei que, sofrendo, deixarei você longe de mim.
Não me envergonharia de pedir ao seu amor esmola,
mas não quero que o meu verão resseque o seu jardim.

(Nem vou deixar – mesmo querendo – nenhuma fotografia.
Só o frio, os planetas, as ninfetas e toda minha poesia.)"

f.y.

19 de ago. de 2010

apenas é

"Os sentimentos vastos não têm nome. Perdas, deslumbramentos, catástrofes do espírito, pesadelos da carne. Os sentimentos vastos não têm boca, fundo de sortunez, mudo desvario, escuros enigmas habitados de vida mas sem sons (...)"
Hilda Hilst

 

      É claro, é leve, é limpo. Posso senti-lo por pouco tempo antes de perdê-lo no vazio. Não o descrevo por vontade, mas sim por necessidade. Não há substantivos possíveis. É como um objeto feito só pela união de adjetivos. Não me lembro a primeira vez que o vi, mas sinto que a cada dia o conheço um pouco mais. Às vezes aparece de súbito, outras vem sutil como o cheiro do alecrim que pousa na panela. Apesar de não ter cheiro, nem cor, nem forma, nem nada. Apenas é. E é inteiro, como algo que de tão óbvio não se pode entender. Pode aparecer em páginas amareladas de um velho livro, ou nos melhores planos dos melhores filmes, mas, geralmente, é do nada que prefere surgir.
      Mas é na ausência que mais posso ver sua presença. Fico atormentada por não conseguir perceber sua cor invisível, sentir seu cheiro de gelo, ouvir o barulho do seu silêncio. É como sentir a angústia dos apaixonados mesmo sem arder de paixão por ninguém.
      E calada eu espero. Ocupo-me de banalidades, troco palavras amenas com pessoas que nunca o viram, jamais o verão ou saberão da sua existência. E então, em algum momento sem importância dos meus dias vazios, o sinto novamente. O sinto e o percebo como uma brisa fria numa manhã quente, como um abraço forte de alguém que não se pode ver. Nesse momento, acho que posso vê-lo, apesar dos olhos fechados. E no momento ido da sua chegada, já posso reconhecer sua partida...
E lá se foi de volta pro reino das coisas indizíveis.

14 de ago. de 2010

das palavras que estão dentro de um olhar

um verso curto
prum longo caminho
eu quero ser o seu mundo
quando estiver sozinho

23 de jul. de 2010

era dos silêncios

“   ”

Depois desse dia muita coisa ficou igual. Eu continuei sorrindo pro espelho, ele continuou achando graça em espirros, eu continuei ouvindo Belchior escondida, ele continuou não gostando de abacaxi, nós continuamos os dois amando portas azuis e tangerina. Mas é que agora havia um silêncio indizível entre a gente. Algo entre a cumplicidade e o remorso, entre o não-dito e o mal-dito. Mas era nesse silêncio onde residiam as memórias, os planos falidos, as declarações interrompidas. Era esse silêncio que nos fazia ser gentis e cordiais, que nos faziam perguntar como vão as coisas, e a família? a faculdade? e o fulano, como ta? e outras perguntas que não nos interessavam as respostas. Era o silêncio que nos fazia desviar o olhar quando os nossos se cruzavam, que nos esfriava as entranhas quando nos víamos de repente. Era o terrível silêncio dos desconhecidos íntimos.

Era o silêncio do vazio.

15 de jun. de 2010

medo

“- Você se importaria de ler algo sórdido? Não, não é bem algo sórdido, pelo contrário, é uma página importante que testemunha a obsessão de registrar todos os pormenores de uma mente e todo o desenrolar da história do pensamento. Eu me curvo e me escondo ante o que escrevi ao me entregar totalmente a esta obsessão. E sinto inclusive o infeliz medo da tua leitura mas fico subitamente feliz porque percebo que deste medo posso fazer outros textos que tematizem o medo e depois falem do texto que escrevi para aplacar o medo e dos outros textos que escrevi para aplacar os primeiros textos. ”

isso é lindo e é ana cristina cesar.


repararam que eu não consigo sair do metalinguístico, de textos que dizem nada e de pequenos pensamentos cíclicos?
pois bem, eu sou mais ou menos isso.


e tenho medo de ficar maluca.

9 de jun. de 2010

durante a aula

gosto de azul. antes não gostava, mas agora eu gosto. gosto de liberdade e de filmes. gosto de cabelo pra cima, verruga na ponta do dedo, nariz grande. gosto de gente que ri e chora ao mesmo tempo, gosto de me sentir longe. gosto de gosto de maracujá. gosto de samba, de vender coisas inúteis, de desenhar, de escrever. gosto da ana e do jeito que ela fala. gosto de chuva de verdade e não aquelachuvinhabobinhaquenãomolhamasincomoda. gosto de comer salgado depois doce depois salgado e doce.gosto de inventar histórias pro meu primo e ver que ele não acredita. gosto de vermelho e de roxo e de verde e de branco e de morango. gosto de conhecer gente que parece que eu já conheço. gosto de inverno, mas só quando estamos no verão. gosto de verão o ano inteiro.

gosto de mimir delicinha com o babababababababa e de incenso de um real.gosto de ir na casa da minha vó e perceber que sempre foi igual e nunca mudou, mas que na verdade mudou sim. gosto de ler vários livros ao mesmo tempo e não terminar nenhum. gosto de domingo, juro que gosto. gosto porque domingo pode ser qualquer coisa.

gosto de vela que já derreteu, de cheiro de manjericão e de cadernos que não tem linha pra escrever. gosto do ronron da gatinha bem pretinha.

gosto de lembrar do que eu não me lembro direito. gosto de tinta, gosto muito de tinta, não sei porque gosto tanto de tinta assim. acho que é porque tinta também pode ser qualquer coisa, que nem o domingo e que nem os filmes e livros pessoas e domingos e tintas...

gosto de coisas que podem ser qualquer coisa.

acho que gosto de qualquer coisa.


9 de mai. de 2010

Pausa

Houve um tempo em que o tempo não passou. Não havia nada dentro daqueles minutos que corriam.

Olhou pra cima. Pro teto. Ficou triste pelo falo de ser um teto e não um lindo céu estrelado. Percebeu que quase sempre é um teto. Ficou algum tempo pensando sobre pensar e então percebeu como era estranho pensar sobre pensar e pensou sobre o pensar do seu pensar e só parou quando apertou olhos com as pontas dos dedos e aí não pensou em nada. Pensou sobre não pensar em nada.

Lançou um olhar de preguiça e desespero para o resto do quarto e lembrou do que tinha que fazer quando o tempo parasse de parar. Examinou as unhas ruídas. Fechou os olhos. Algumas imagens dançaram pela escuridão do seu interior, fizeram piada, bateram palmas, sorriram e foram embora. Começou a imaginar-se daqui a alguns anos. Não conseguiu decidir se queria ter cabelo curto ou comprido e então parou de imaginar.

Abriu os olhos. A claridade a incomodou. Fechou os olhos. Percebeu um vazio interno. Não se impressionou, este ela conhecia há tempos, mais ou menos o mesmo tempo que conhecia a si mesma. Ele tinha dois melhores amigos: o Frio na Barriga e a Palpitação. Andavam sempre juntos e, na verdade, não eram muito legais não.

Respirou fundo. Sentiu-se completamente envolta pelo nada. Abraçou essa incerteza e, por alguns instantes, se sentiu lisonjeada por aquela sensação. Naquele momento, ela sentia o mundo.






Abriu os olhos. Sorriu. Deu corda no tempo e ele voltou a funcionar.

30 de dez. de 2009

novo início

É difícil começar. Folhas em branco metem medo. Assusta o fato delas poderem ser qualquer coisa, inclusive um desastre.

É difícil ter medo. Nós, os medrosos, preferimos manter os olhos fechados, mesmo sabendo que isso não ajuda em nada.

É difícil fechar os olhos. Pra tanto, é preciso se desapegar totalmente da razão e deixar transparecer pra si mesmo a fraqueza.

É difícil o desapego. Desapegar-se é não se envolver mais no próprio passado, é não olhar pra trás, é não ponderar.

É difícil o passado. Porque é teimoso e vive se repetindo, voltando, debochando. Parece que anda em círculos.

É difícil repetir. Uma hora ou outra acaba a graça.

É difícil acabar.

É difícil.

12 de nov. de 2009

início

"Afastem-se, vacas, que a vida é curta!"

Palavras doces do Coronel para começar.

Aqui, coexistirão em harmonia fanatismos literários, erros ortográficos (neologismos, ok?), burrices, poesia e lisergia.

Seja Bem-Vindo!